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POR QUE A PONTO URBANO? A DEGRAVE RESPONDE



Meu escritório desenvolve uma Arquitetura de Interiores em escalas variadas, comprometida sempre em proporcionar espaços harmoniosos cujos encaixes e acabamentos transmitem nosso cuidado até o último detalhe perante nossos clientes e fornecedores.

Nosso ponto de partida nunca é a “folha em branco”. Pelo contrário, buscamos compreender tanto as solicitações apresentadas como identificar de oportunidades latentes que a arquitetura pode proporcionar. Com isto, queremos dizer que um bom projeto nasce das restrições; e boas ideias + criatividade trabalham, na verdade, para dar vida às mesmas.

Trata-se de um esforço de correlacionar valores com quantidades. É um processo criativo, mas sempre subordinado à uma realidade prática e notadamente concreta. Arquitetura, desta maneira, é uma atividade muito instrumentalizada e a informática confere um dinamismo inédito e inegável à prática, conseguindo superar-se a cada ano. As ferramentas digitais e os softwares colaborativos transformaram sem volta o dia-a-dia do arquiteto tanto no âmbito físico como nas relações de trabalho. O profissional pôde, ao longo dos últimos anos, desligar-se fisicamente do escritório para encontrar seu ferramental de trabalho disponível onde quer que ele seja requisitado.

Desde o atendimento ao cliente ou fornecedor; até o detalhamento das minúcias de projeto, o grau de portabilidade do qual dispomos hoje é assustador. Nosso acervo está nas nuvens e os equipamentos portáteis tem uma capacidade de processamento sem nenhum comprometimento. Neste contexto, o ambiente físico de trabalho passou a ser considerado sob outra lógica de performance, distinta do que acontecia não há muito tempo atrás. A meu ver, este ambiente de hoje requer tocar essencialmente o homem, compreende-lo existencialmente, contribuir de alguma maneira com o seu aprendizado. Tudo o que estiver fora disto, é uma espécie de tempo perdido.

Nos escritórios, o ato de abrigar – funcionários, acervos, clientes, reuniões, por exemplo, se transformou; e com ele também suas contrapartidas físicas, econômicas e logísticas. As possibilidades da tecnologia digital não chega a eliminar nenhuma destas atividades, mas deu liberdade extrema para experimentar outros arranjos no seu modo operante. “Se não é mais necessário fazer a reunião em tal endereço, onde seria melhor para Cliente e Prestador? Se eu não preciso mais ir até o escritório para consultar tal documento, qual fornecedor eu posso visitar agora à tarde? Se eu não tenho mais que ter objetos, acervos, gavetas e armários; o que eu preciso aprender para melhorar minha produtividade?” Todos estes exemplos já estão bem disseminados no senso comum das pessoas, mas eles continuam a evoluir, com vetores ainda incompreensíveis para muitos de nós. Basta vislumbrar quais os efeitos que a Inteligência Artificial guarda para o futuro próximo, um comentário obviamente retórico, mas profundamente interessante, filosófico e pragmático.

Pessoalmente, eu enxergo tais transformações de maneira ambivalente: elas tanto escancaram as possibilidades, concedendo acesso a um numero infinitamente maior de participantes, como elas representam barreiras de entrada para aqueles que não conseguirem situar-se neste novo ambiente. Diante das projeções excessivamente líquidas, o assunto ganha facilmente o campo abstrato (e um tanto especulativo). Gostaria de assim fazer (abstrair), para depois voltar à prática do meu dia-a-dia e ao ambiente de trabalho compartilhado. Consideremos, com certa licença poética e simplória, que os avanços no campo material/ tecnológico/ produtivo continuem a liberar a humanidade de uma série de atividades mecanizadas. Sigamos com a perspectiva desta evolução marchando rumo ao ponto onde o homem torna-SE imprescindível a qualquer tipo de atividade produtiva. Neste momento específico e utópico, algo extraordinário se insinua: no dia em que a máquina superar o homem, e não mais servirmos PARA o homem, restar-nos-á unicamente voltarmos a nós mesmos sob outra perspectiva. Serviremos tão somente AO homem. É necessário compreender o valor do homem em si mesmo sob uma perspectiva distinta de tudo o que foi então vivido. Amar a nós mesmos para poder tocar a dimensão que insistimos em negligenciar.

Dentro desta linha diretiva, enxergo as aparentes convulsões vividas na economia, política e cultura contemporâneas uma espécie de catarse alinhadas com os valores expostos. Diante dos muitos exemplos lembro-me do exercício de liberdade quase opressiva, da descentralização de instituições, economias e países; da emancipação de minorias, revogação de gêneros, a diluição das identidades; da lógica colaborativa, noção de compartilhamento de recursos, a mudança do verbo “comprar” por “assinar”; da desintegração das referências de tempo-espaço, do nascimento de uma inteligência artificial e autônoma, do surgimento de um protocolo capaz de garantir transparência e segurança para trocar de valores na rede (Blockchain). Todos estes são exemplos de uma mudança de ESTADO – e não simples fatos. O modo que foi até então, desaparece do mapa. É como se a realidade humana fosse transferida para patamares distintos. E se concatenarmos todos eles há, latente, uma coerência possivelmente não aleatória. Como se estivéssemos, de alguma forma, antecipando a lógica apresentada no parágrafo anterior, a irrevogabilidade da lei do amor.

Portanto, seja no Coworking, no jantar em família, na fila do supermercado, nos sites de encontros de hoje; incorporamos – quase que sem querer-querendo – novo vocabulário e uma compreensão mais ampla de nós mesmos. Não obstante a fase cinzenta e cheia de contrastes, estamos fadados a nos conhecermos e nos respeitarmos melhor.

Cabe, portanto, aproveitar o dia de hoje. Viver plenamente o percurso onde encontramo-nos cada vez mais livres porém mais responsáveis; mais seletivos, porém mais tolerantes; mais fragmentados porém mais conectados; mais ansiosos porém mais esclarecidos.

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